Óh Saudade, até quando?

Posted: May 18, 2012 in Poesia, Português

Óh Saudade, cruel dama da noite que inflama o coração do solitário.
Até quando desprezarás as canções dos que amam?
Até quando rejeitarás os versos dos poetas?
Até quando usarás a lua e as estrelas como teus algozes?

Óh Saudade, tu que espezinhas aquele fica e o que se foi.
Até quando te banharás nas lágrimas dos imigrantes?
Até quando te deliciarás nos choros dos órfãos?
Até quando encurtarás teus passos nesta longa caminhada?

Óh Saudade, senhora do crono,
Até quando atrasarás as horas das chegadas?
Até quando adiantarás as horas das partidas?
Até quando insistirás em estar presente?

Óh Saudade, como podes matar-me com doces lembranças?
Até quando usarás o amor para infligir o teu mal?
Até quando usarás os abraços para abandonar-me?
Até quando usarás o sorriso para me levar ao pranto?

Óh Saudade, até quando?

por Luis Alexandre Ribeiro Branco
Twitter: @LuisARBranco

Os tempos tem mudado numa velocidade impressionante. Não que eu tema à mudanças, pois em certos aspectos as mudanças são boas e necessárias, minha maior preocupação são com as mudanças dos princípios e valores, em especial na igreja e na família. Na igreja, a parte mais afectada tem sido a hermenêutica da Escritura, que em muitos arraiais cristãos, em especial nos meios neopetecostais, perdeu totalmente seu sentido clássico, cedendo espaço para as novas tendências hermenêuticas.

Com estas mudanças surgiu nas décadas de 60 à 80 aquilo que conhecemos como a nova hermenêutica. Essa nova hermenêutica se destacou por ter sua visão da Escritura centrada no leitor do texto bíblico, e não na Escritura em si, conferindo ao leitor toda autoridade de interpretar isoladamente o texto bíblico dando a ele o significado que bem entender. Um exemplo disto é o que Robert Crosman escreveu: “O significado (do texto) é exactamente como queremos que ele seja.” (Crosman, Do Readers Make Meaning, pág. 164).

Este pensamento dominou os púlpitos das nossas igrejas, onde a Bíblia é lida como mero ritual litúrgico, mas a sua interpretação foge totalmente ao crivo bíblico, onde a Escritura deve ser comparada com a Escritura, analisada dentro do seu contexto histórico cultural e apoiada pela exegese dos textos originais. No entanto, a nova tendência conferiu ao leitor autoridade para dar significado a Escritura de forma isolada, contrariando os princípios bíblicos adoptados pelos apóstolos, pais da igreja e reformadores. Stanley Fish escreveu que: “A resposta do leitor não é apenas para o significado, é o significado.” (Is There a Text in This Class? The Authority of Interpretive Communities – Cambridge: Harvard University Press, 1980, pág. 3).

A nova tendência hermenêutica trouxe, portanto, uma grande confusão bíblica para dentro da igreja, onde não há mais significado literal para os textos bíblicos, só uma pluralidade de possibilidades de significado que são concretizadas no ato de leitura. Sendo assim, se o significado do texto é dado pelo leitor, a Bíblia já não confronta o pecado e as heresias, pois cada pessoa é livre para interpretar a passagem bíblica conforme seu critério pessoal. No entanto, sabemos que este caminho é perigoso e destrutivo para a igreja. Dietrich Bonhoeffer declarou que nos encontramos com não mais do que com um ídolo, se através do texto encontramos o que está de acordo connosco mesmo.

João Calvino escreveu que: “É uma audácia próxima ao sacrilégio usar as Escrituras como nos apraz e brincar com elas como se fossem uma bola de ténis, como muitos já fizeram anteriormente… a primeira tarefa de um interprete é deixar que o autor diga aquilo que expressa de fato, em vez de atribuirmos a ele aquilo que achamos que ele quer dizer.”

É importante que a igreja retorne ao método histórico-gramatical da interpretação da Escritura, caso contrário continuaremos a assistir o catastrófico afastamento da igreja das verdades bíblicas, se voltando para as fábulas e heresias trazidas por esta nova onda de pastores, bispos e apóstolos que manipulam a Escritura para assegurar seus interesses escusos oprimindo a igreja de Deus.

Sola Scriptura!

Pr. Luis Alexandre Ribeiro Branco

Twitter: @LuisARBranco

Quando cheguei a Índia fiquei assustado com a quantidade de deuses no panteão hindu, aproximadamente trezentos e trinta milhões, e além destes ainda existem os avatares, considerados uma manifestação corporal de um ser superior, e os sadhus, uma categoria de homens santos geralmente caracterizados por suas bizarras formas de vida. Na teologia hindu, deuses estão em outra esfera de vida, enquanto os avatares e sadhus são figuras contemporâneas no mundo dos homens. No entanto todos eles são adorados de uma forma ou de outra.

Na linguagem bíblica e também ocidental o termo que mais se aproxima do termo avatar é ídolo. Um ídolo é uma imagem ou qualquer coisa que seja objeto de adoração em lugar do Deus Verdadeiro. Os perigos que envolvem a idolatria são tão grandes que o Senhor incluiu o dever de nos afastarmos da idolatria como o primeiro mandamento: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.” (Êxodo 20:4-5).

Uma das características da pós-modernidade é o retrocesso à costumes pagãos de séculos e até milénios atrás, e a busca desesperada por ídolos é uma destas características. O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo sobre este tempo: “E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.” (2 Timóteo 4:4). No cristianismo contemporâneo os ídolos sutilmente tomam o lugar do Deus Verdadeiro, e eles não são mais aqueles ídolos de madeira, ferro, barro ou ouro retirados da igreja pelos reformadores, eles são avatares, figuras humanas, que são adoradas e veneradas numa espécie de sadhusismo cristão.

A sutileza dos ídolos pode ser observada na diferença entre eles e Jesus, a começar pelo mais importante, a autenticidade, pois só o Senhor é Deus (Sl 86:10). Tudo o mais que tenta usurpar Sua glória é fraudulento! Mas quero completar este aforismo teológico com uma simples comparação entre Jesus e os ídolos, como se segue.

Os ídolos colocam o homem na plateia, como um mero espectador que assiste inerte as bizarrices de seus objecto de devoção. Enquanto Jesus nos convida para um relacionamento com ele que se desenvolve a partir da Palavra de Deus (Lc 11:27-28). Os ídolos paralisam o homem numa letargia nefasta impedindo-o de agir diante de todas as injustiças e corrupções infringidas pelos abusadores dos poderes espirituais e temporais. Enquanto Jesus estabelece um padrão claro a ser seguido pelos seus, confrontando toda forma de abuso e colocando sobre os seus a responsabilidade do agir (Mt 5:6, Rm 6:18). Os ídolos levam o homem a acreditar que a espiritualidade e serviço a Deus se resumem na histeria emocional, no choro, no balançar do corpo, no elevar da voz, etc. Enquanto Jesus nos envia adiante de si (Mt 28:19-20; At 1:8), como partes fundamentais no estabelecimento do seu reino. Os ídolos em nome de uma pseudo profundidade espiritual leva o homem a cauterização da sua mente impedindo-o de pensar de forma implicativa, enquanto Jesus liberta nossa mente dos cativeiros da mentira e nos conduz ao culto racional (Jo 8:36; Rm 12:1).

Soli Deo Gloria!

Pr. Luis Alexandre Ribeiro Branco

“Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós…” (Êxodo 32:1)

O capítulo trinta e dois de Êxodo tinha tudo para ser a narrativa de um grande facto na história da humanidade, mas a idolatria ofuscou este grande momento. O texto narra a descida de Moisés do Monte Sinai com as tábuas da lei nas suas mãos.

Há alguns detalhes especiais nesta narrativa: Uma é o facto desta ser a primeira vez na história da humanidade, da qual temos conhecimento, que a Palavra de Deus deixava o ambiente da sua tradição oral para o ambiente da tradição escrita. Outro facto muito importante, é que estas tábuas escritas não eram tábuas qualquer, eram escrituras da própria mão de Deus (v.15-16). Entre todas as coisas que Deus criou, apenas duas ele criou com suas próprias mãos, o homem (Gn 2:7) e as tábuas da lei (Ex 31:18).

O que torna este momento especial é a junção destes dois factos, a tradição escrita da Escritura Sagrada toma sua forma com os próprios dedos de Deus. No entanto, o povo estava tão acostumado aos ídolos que, ao invés de aguardar com expectativa, temor e alegria pelo retorno de Moisés, se entregam aos seus próprios caprichos e buscam para si um deus segundo os seus próprios ideais.

O mundo actual quer uma espiritualidade instantânea, capaz de ser fabricada em minutos. No entanto, espiritualidade não se fabrica se desenvolve num exigente processo de relacionamento com Deus. O povo de Israel não tinha tempo para esperar, queria um deus o qual eles pudessem por onde desejassem, um deus que eles pudessem construir com suas próprias mãos, um deus o qual pudessem agregar valor e quando se fartassem dele, fundí-lo com outro ou descartá-lo se assim desejassem.

Eles não queriam um Deus Santo, um Deus que se afirmasse no universo como “único” – echad (Dt 6:4) – Deus. A força desta afirmação da singularidade de Deus no universo era considerada uma completa arrogância no mundo totalmente politeísta daqueles dias. A verdade é que os seres humanos gostam de ídolos, e por isso pediram a Arão: “Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós…” (Êxodo 32:1).

Eis aqui um dos grandes desafios ministeriais destes dias: “as pessoas esperam que sejamos fabricantes de deuses”. Tal como naqueles dias, não estão interessados no que a Escritura diz, querem uma espiritualidade qualquer que produza um efeito imediato em suas almas vazias de Deus e da sua Palavra. A ênfase destes dias está totalmente na experiência, no que eu acho, no que eu quero acreditar, e na escolha de textos isolados da Bíblia torcidos a bel-prazer para justificar as aberrações desesperadas da alma idolatra.

A idolatria é um pseudo atalho para se chegar a Deus, mas para se chegar a Deus não há atalhos possíveis, há um caminho. Em João 14:6 vemos Jesus se levantando em meio a este mundo idolatra com sua gloriosa afirmação: “…ninguém vem ao Pai, senão por mim.” Este Jesus é o Logos (Palavra) de Deus (Jo 1:1). Assim como nos dias de Moisés os homens rejeitaram a Palavra Escrita devido seu envolvimento com a idolatria, nos dias atuais, rejeitam a Palavra Encarnada pelos mesmos motivos. No entanto, os dias mudaram, evoluíram, se assim podemos dizer. Hoje não é a imagem de um bezerro que atrai as pessoas, o humanismo colocou o homem no centro da sua própria adoração, numa espécie de “autolatria”. No entanto, esta autolatria toma forma através do projectar nos outros aquilo que eu desejo ser, mas que de alguma forma não consigo. É assim que acontece na igreja, as pessoas projectam em pastores, músicos, etc. aquilo que desejariam ser, mas não são. São ídolos, que iguais aos bezerros de ouro, são passíveis de manipulação.

Tal como nos dias de Êxodo 32, vivemos um momento singular na história, um momento que o escritor aos Hebreus descreveu de maneira majestosa: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.” (Hebreus 1:1). O Filho de Deus é o Logos de Deus, a Palavra Encarnada, mas igualmente nos dias de Moisés as pessoas estão distraídas demais com seus ídolos para se aperceberem da grandiosa riqueza que é adorar a Jesus, crer nele e serví-lo de todo coração, e a ele somente!

Soli Deo Gloria!

Pr. Luis Alexandre Ribeiro Branco

 

 

A Linha Missionária

Posted: April 30, 2012 in Português
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Em um momento da minha vida missões era uma linha em um horizonte distante que eu sonhava alcançar…
 
Em um momento da minha vida missões era uma linha embaraçada em meus pés, com outras linhas que igualmente tentavam me segurar e da vontade do mestre insistiam em me afastar…
 
Em um momento da minha vida missões era uma linha à minha frente que me mostrava por onde caminhar…
 
Neste momento da minha vida missões é uma linha atrás de mim onde o início já não consigo enxergar, e segue adiante de mim, sumindo no horizonte, me mostrando que ainda há muito para andar…
 
por Luis Alexandre Ribeiro Branco
Twitter: @LuisARBranco

Não desperdice suas lágrimas

Posted: April 19, 2012 in Português

Logo em seu primeiro sermão público Jesus disse: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4). Ele não nos manda deixar de chorar, tal como é a tendência daqueles que estão ao nosso redor, ao contrário, como Deus de compaixão, ele nos promete o consolo. Eugene Peterson na sua versão da Bíblia parafraseou assim o texto acima: “Abençoados são vocês, que sofrem por terem perdido o que mais amavam. Só assim, poderão ser abraçados por aquele que é o amor supremo.”

No entanto, este consolo está atrelado ao início do versículo, “bem-aventurados” ou “abençoados”, como que uma referência a nossa necessidade de sermos bem-aventurados, para que então possamos ser consolados. Aquele que chora, e que ao contrário, de ver e ter a consciência de que é uma pessoa abençoada por Deus em Cristo, vê-se como um ser miserável e pobre coitado, não experimentará este consolo de Deus. Portanto, ser e viver como um abençoado é um imperativo para receber o consolo de Deus na jornada da vida.

Há muitos crentes que vivem desperdiçando suas lágrimas, são as lagrimas do desespero, daqueles que vivem como uma folha seca caída no chão que são empurradas pelos ventos, sem destino algum. Nós não somos assim, somos pessoas abençoadas, com destino certo. Somos pessoas para quem o choro deve servir de agentes purificadores que nos tornam cada vez mais dependentes do Senhor, não somos pessoas do desespero ou das lagrimas desperdiçadas.

por Rev. Luis Alexandre Ribeiro Branco

Twitter: @LuisARBranco

Do que hei de orgulhar-me?

Posted: April 17, 2012 in Português

Se na vida tudo é vaidade, do que hei de orgulhar-me?

Hei de orgulhar-me da existência que existiu sem mim, ou da minha vida que só é minha porque me foi dada e sobre a qual não tenho poder algum?

Hei de orgulhar-me do corpo que surgiu informe pertencente ao barro e ao barro há de voltar, ou da beleza e força física que um dia não era e um dia deixará de ser?

Hei de orgulhar-me de uma herança social que não construí ou escolhi, na qual fui enxertado como uma sina inevitável?

Hei de orgulhar-me da utopia nacionalista, como se nação foi um bem não criado, como criados são todos os homens, e que como eles surgem na história e dela desaparecem?

Hei de orgulhar-me da riqueza que hoje existe e amanhã desaparece, que não trouxe comigo a esta vida e daqui não a levarei?

Hei de orgulhar-me da educação que não é parte de mim, mas me foi dada como um bem universal e não pessoal?

Hei de orgulhar-me das obras das minhas mãos que são derrubadas pelo tempo, ou das minhas conclusões que são substituídas por outras?

Hei de orgulhar-me da bondade, do amor, da caridade ou da compaixão, se minha bondade nunca é completamente boa, nem meu amor completamente puro, nem minha caridade e compaixão completamente desinteressada?

Hei de orgulhar-me da fé que não tive sozinho, ou dos caminhos que nunca seria capaz de trilhar por mim mesmo?

Hei de orgulhar-me das virtudes divinas como se fossem minhas?

Se na vida tudo é vaidade, do que hei de orgulhar-me?

Orgulhar-me-ei só de ti meu Deus, que transcende a vida!

por Rev. Luis Alexandre Ribeiro Branco